Manifesto
Ricardo Schweitzer
Aqui não tem alerta, não tem grupo, não tem ordem.
Não vai chegar mensagem no seu celular às dez e quarenta e sete mandando comprar. Não existe lista fechada com o nome da ação em negrito e três exclamações. Não existe a versão resumida, e não existe porque eu não acredito nela.
O que existe é um relatório, e ele é longo porque o assunto é longo.
Comprar ou não comprar cabe em uma palavra. O preço até o qual aquilo faz sentido cabe em um número. Se o meu trabalho fosse esse, eu mandaria uma planilha por mês e todos nós economizaríamos umas boas horas.
O que toma tempo é o resto. Por que esta empresa e não a concorrente. O que precisa continuar sendo verdade para a tese sobreviver. O que a companhia escreveu no release que não resiste a uma leitura atenta, e é impressionante a frequência com que a resposta é "quase tudo".
Numa edição recente gastei quatro mil e quinhentas palavras estudando um fundo imobiliário para concluir que não compraria aquilo naquele preço. Quem queria a tabela perdeu a tarde. Quem queria entender como se recusa uma tese teve a edição mais útil do trimestre.
Isto começou como o trabalho que eu faço para o meu próprio dinheiro.
Passei a vida fazendo análise. Em algum momento ficou claro que o mundo corporativo não era para mim, e fui para o research independente, que era onde ia quem queria trabalhar sem pedir licença.
Vi cada lugar por onde passei se institucionalizar. É o que acontece com instituições: elas crescem, ganham processo, ganham meta, ganham gente cuja função é fazer a meta acontecer.
E em algum ponto do percurso começam a tropeçar exatamente nas deformidades que me fizeram sair do corporativo. Vi acontecer mais de uma vez, o que descarta azar.
Quando vendi a empresa que eu tinha antes desta, minha prioridade número um passou a ser uma só: cuidar do meu próprio patrimônio. É o que eu faço todo dia, com a minha carteira e com o meu dinheiro, e faria igual se ninguém estivesse lendo.
Aí antigos clientes começaram a aparecer, querendo saber o que eu andava comprando. Os produtos saíram daí, nessa ordem: primeiro o trabalho, depois a assinatura.
E parte deles queria mais do que ler: queria acompanhamento. Daí veio a consultoria, tão independente quanto isto aqui. Os clientes dela leem o que eu escrevo ao mesmo tempo que você, nunca antes, e podem ter as mesmas posições que eu tenho.
Isso explica coisas que de outro modo pareceriam excentricidade.
Explica por que os relatórios são longos além do razoável: é assim que eu penso antes de mexer no meu dinheiro. Explica por que a carteira quase não muda, porque carteira de patrimônio não gira para provar movimento. Explica por que não tenho nada para te empurrar: não há produto de terceiro na prateleira, não há corretora patrocinando, não há banco do outro lado da mesa.
E um dos produtos nasceu de um jeito ainda mais prosaico. Eu era assinante de um relatório de fundos imobiliários que, um dia, simplesmente deixou de existir. Descontinuado. Fiquei sem cobertura de uma classe inteira de ativos onde eu tinha dinheiro, e a única alternativa era passar a fazer sozinho. Passei. Hoje é um dos produtos que eu publico.
Guardo aquilo como lembrete de por que eu escrevo do jeito que escrevo. Quem recebia só a lista ficou sem nada no dia em que a lista acabou. Quem entende o raciocínio continua sabendo pensar no dia seguinte, com ou sem mim.
O que eu devo a você, e o que eu peço de volta.
Do meu lado da mesa, o acordo é este.
Eu mudo de ideia.
Existe um incentivo silencioso neste ofício que empurra o analista para a rigidez. Opinião publicada vira posição pública, posição pública vira reputação, e reputação a gente defende. O resultado é gente relendo o próprio texto antigo à procura de motivo para mantê-lo.
Não trabalho assim, e não por grandeza de espírito. Análise é um exercício intelectual sobre o que ainda não aconteceu. Nenhuma conclusão sobrevive intacta ao contato com fatos que não existiam quando ela foi escrita.
Mudo por preço, quando ele passa do ponto em que a conta ainda faz sentido. Mudo por fundamento, quando a empresa deixa de ser a que eu descrevi. E mudo quando descubro que a leitura errada era minha, que é a mais desconfortável das três e não é a mais rara.
Já rebaixei uma recomendação no dia em que a empresa divulgou a melhor notícia do ano dela. A notícia era excelente e o preço tinha passado do ponto em que eu seguia recomendando comprar. Em outra edição rebaixei quatro nomes de uma vez sem mexer em nenhum dos preços-limite, que teria sido a saída confortável e é a mais comum.
Isso irrita uma parte dos leitores. Costuma irritar menos depois.
Eu não decido por você.
Você vai ler o argumento inteiro, com o que pesa contra. Vai ver de onde saiu cada número, inclusive quando o número contraria o que eu gostaria que ele dissesse. E depois vai decidir sozinho, porque o dinheiro é seu e a decisão sempre foi sua.
Não escrevo para poupar você de pensar. Escrevo para que você pense com material melhor.
Eu erro, e você vai ficar sabendo por mim.
Mudar de ideia em silêncio seria fácil, e é o que costuma acontecer: a recomendação some da tabela e ninguém explica. Aqui a tese que muda vira texto, com data, explicando o que eu não tinha visto.
Nunca conheci ninguém neste mercado que acertasse sempre, e desconfio profundamente de quem dá a entender que sim.
O que eu peço de você.
Que leia. Que discorde. Que me escreva quando achar que o argumento tem um buraco, porque às vezes tem. Leitor que questiona melhora o meu trabalho; leitor que concorda com tudo não me serve para nada, e eu tampouco sirvo para ele.
Quem não deveria assinar.
Quem quer que alguém decida no lugar dele. Quem procura a próxima ação que vai subir trinta por cento em sessenta dias. Quem não tem tempo de ler e acha que dá para pular direto para o final.
E principalmente quem, quando a coisa dá errado, sai procurando de quem foi a culpa. Vai ser sua. Como foi minha todas as vezes que eu decidi pelo meu próprio dinheiro.
O que eu recomendo cabe em uma linha.
Por que eu recomendo é o que você assina.